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No vício descarregava tensões, pois passou a existência em meio a elas. Nomes próprios Apóstrofo Eles se foram. Num Die ho'fische'' Gesellschaft,. Era uma escola moderna, à qual famílias de nome da província confiavam seus filhos. Podemos acrescentar, entre parênteses, que o Émile prega uma espécie de dominant est de s'occuper de lui plus que des autres, et celui des méchants, au contraire, est de s'occuper des autres plus que d'eux" Carlos Lacerda, no entanto, raciocinou de modo correto. Em ínglés, o relativo that caracteriza a restrítiva, enquanto who whom aparece na explícativa. Deixou o governo. Nabuco saiu candidato à Câmara pelo 1o distrito da Corte graças ao senador Liberal Silveira da Mota, emancipacionista dos debates da Lei do Ventre Livre e frequentador das conferências-concerto. As lavadeiras cantam. Todos nós sofremos de um mal endêmico. Com tantos analfabetos, temos também mais professores que os Estados Unidos. Na economia, produziu incerteza em alta voltagem.

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Rousseau teve a capacidade de formalizar o mito em teoria. E a teoria tornou-se uma tremenda ideia-força. O homem que pensa seria para ele um animal depravado. Em seu Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, procura Rousseau sustentar esses preconceitos, argumentando no sentido de que a anatomia comparada indica ter sido nossa espécie, originariamente, um bípede frutívoro.

Diderot aconselhava: "Gozai sem susto Sede felizes O homem, sendo bom em estado de natureza, cabe à sociedade a culpa inteira pelos seus crimes. O relacionamento e interdependência social constituem a fonte de todos os males.

Rousseau acentuava possuir "provas fatais" de sua estranha teoria. Os homens tornam-se infelizes e maldosos ao se socializarem. Comecemos por afastar todos os fatos, "car ils ne touchent point à la question". No entanto, descreve os camponeses da Suíça, isolados em seus altos vales alpestres, como o paradigma supremo da felicidade para a humanidade.

Rousseau se coloca definitivamente contra esse grande ídolo do século XX que chamamos de desenvolvimento: ele é, na verdade, o primeiro profeta do modo de vida dos hippies.

O primeiro cantor de rock. Tais caprichos do destino frequentemente ocorrem O poder de seus livros sobre nosso próprio século resulta do fato de que representa ambas as correntes, ambos os lados do nosos que ainda nos afeta. Nesse debate, uns elogiam e compreendem, com simpatia, sua vida e obra.

George Sand o chamou de Santo Rousseau. Em seu favor recebeu os elogios de homens ilustres como Kant, Schiller e Tolstoi. Lord Acton acreditou que a pena de Rousseau "produziu maiores efeitos que a de Aristóteles, ou de Cícero, Sto. Agostinho ou S. E, mais recentemente, o antropólogo Lévi-Strauss teceu salmos de louvor estruturalista ao grande sofista.

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Grimm, outro velho amigo, acabou detestando-o. Huizinga observa: "Todo esse palavreado audacioso contradiz frontalmente outros trechos do mesmo livro. Na verdade, em sua obra, o sonho se mistura com a lógica.

Sempre confessou o próprio Rousseau que permanece "o mais agudo conflito de interpretações" sobre seu pensamento. Donde a diversidade caleidoscópica de sua influência. Entretanto, Jean-Marie Benoist, o jovem liberal-conservador francês, pede desculpas por ainda o admirar Na maior parte das vezes indigesto, confuso e anódino.

Na verdade, todo o trabalho de Rousseau pode ser compreendido como uma tentativa egomaníaca de racionalizar e exprimir logicamente as experiências de típico puer aeternus, de eterno adolescente emocional. Confessou-se publicamente. Quase masoquisticamente. O mal du siècle também bate tambor em Chateaubriand e no spleen do Childe Harold de Byron. Je me trouve si bizarrement disposé à cet egard, qu'ètant un jour aborde par deux personnes à la fois, avec 1'une desquelles j'avais accoutume d'être gai jusqu'à la folie, et plus ténébreux qu'Héraclite avec 1'autre, je me sentis si puissamment agité, que je fus contraint de les quitter brusquement, de peur que le contraste des passions opposées ne me fit tomber en syncope".

A palmada freudiana "teve um efeito decisivo sobre meus gostos, meus desejos e minhas paixões para o resto de minha vida". Rousseau nunca se decidiu, nem a casar, nem a abandonar a pobre criatura. Podemos acrescentar, entre parênteses, que o Émile prega uma espécie de dominant est de s'occuper de lui plus que des autres, et celui des méchants, au contraire, est de s'occuper des autres plus que d'eux" Ses amusements, ses plaisirs sont innocents et doux comme ses penchants: il n'y a pas dans son âme un goût qui soit hors de la nature, ni coûteux ou criminel à satisfaire" J'y distingue plutôt le clair de lune romantique Devemos, entretanto, salientar a existência de um outro aspecto na mentalidade de Rousseau.

Corria o ano de O sentimento supremo de auto-suficiência "tant que cet état dure, on se suffit à soi-même, comme Dieu Acredito que os frios, lógicos e um tanto ou quanto céticos philosophes enfrentaram as mesmas dificuldades que aterraram a posteridade, ao tentar destrinçar os nós cegos das declarações contraditórias de Rousseau.

Como resultado, nosso pensador foi também elogiado e criticado com a mesma falta de consistência. A nave de seus pensamentos foi de encontro aos escolhos que criara numa tempestade desesperante. Ao menos, porém, em seu pensamento repousa o despotismo sobre a ideia de liberdade. É a tese do Contrato Social".

As inconsistências de Rousseau seriam, ao que me parece, da própria essência de sua filosofia. Os paradoxos encarnam a natureza dialética mais íntima da ideologia que foi refinada por Hegel e por Marx e que triunfa em nossos dias quando, por toda parte neste mundo, os regimes mais disparatados, antagonísticos e incompatíveis reclamam emocionalmente a mesma esplendorosa defesa da Liberdade, da Justiça e da Democracia.

E que algumas ainda mais obscurantistas se intitulem "científicas"? George Orwell inventou o termo magnífico double-think. O triunfo da oclocracia. Muitos dos admiradores modernos de Rousseau protestam, às vezes veementemente, contra as suspeitas que recaíram sobre sua obra desde a época de 78 Robespierre, de Hegel, Marx, Stalin e Hitler.

Talvez o próprio Rousseau se houvera sentido absolutamente aterrado com o uso que foi feito de suas teorias, se tivesse contemplado Auschwitz e o arquipélago Gulag.

Um homem que escreveu sobre todos os assuntos de um modo ou de outro, só pode ser interpretado desse modo ou de outro.

Afinal de contas, temos que considerar o que ele disse, literalmente. Essas foram as ideias que influíram sobre seus contemporâneos e sobre seus seguidores jacobinos. Cassirer procura resolver nossa perplexidade ao manter que a unidade do pensamento de Rousseau deve ser procurada na qualidade essencialmente ética de seus ensinamentos.

Alfred Cobban, outro admirador, confessa que nenhuma síntese de suas ideias é possível: elas devem ser catalogadas num ou noutro de dois grupos contraditórios. O padre francês R.

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Rousseau também idealizava Esparta e Roma. Prefiro acreditar que o Calvinismo evoluiu para o liberalismo-conservador moderno Rousseau idealizava as virtudes republicanas de Genebra.

Através de todas as ambiguidades inconsequentes de suas teorias sociais, deparamo-nos sempre com um esforço dialético para aniquilar e fundir totalmente a consciência racional no grande caudal tormentoso da vida coletiva. Donde a incapacidade igual de alcançar o significado transcendente da Cidade como uma vivência íntima da alma, no sentido agostiniano.

Para Rousseau, o grupo possui uma realidade própria. O moi commun representa um Ego coletivo. Consequentemente, é uma entidade moral possuidora de sua própria vontade, a "Vontade Geral" volonté générale , capaz de fixar os próprios gabaritos morais de todos os seus membros. Mas, em que consiste exatamente a Vontade Geral?

Rousseau insiste na diferença entre as duas espécies de "vontade", desde que a segunda representa apenas o somatório de todos os interesses privados, enquanto possui a primeira uma realidade superior, em qualidade e valor, à realidade dos membros individuais do grupo. A Vontade Geral é definida como l'organe sacré de la volonté d'un peuple". Tentem, pois, resolver o criptograma!

O argumento é vicioso. E Stalin obedecia virtuosamente à Vontade Geral do povo russo quando mandava 20 milhões de russos para o Gulag?

Cobban, ele próprio, acaba reconhecendo que todo o argumento de Rousseau constitui, na verdade, um enigma esfingético sem sentido. Agindo graças à sugestibilidade histérica que cria, o aventureiro político pode proclamar o carisma da sua vontade.

O demagogo é dono da Vontade Geral. Constitui de fato uma graça mística que é, porém, muito mais frequentemente concedida pelo sombrio Príncipe deste mundo do que por Deus onipotente. Quiconque refusera d'obéir à la volonté générale y sera contraint, par tout le corps: ce qui ne signifie autre chose sinon qu'on le forcera d'être libre. O princípio de Rousseau configura um mero jogo de palavras. E, precisamente, porque ele apreciava tais dispositivos sofisticados é que pode ser considerado um dos precursores das técnicas modernas de propaganda e patrulhamento.

Como primeiro passo, um sentimento de euforia se manifesta.

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O povo acredita que alcançou afinal o estado ideal de liberdade, igualdade, justiça e felicidade. Cedo, entretanto, crescem as dificuldades. A anarquia se transforma em proveito dos mais astuciosos e ambiciosos. A história se repete invariavelmente.

Émile Faguet acreditava que o movimento socialista começou com Rousseau. S'ils tentent de secouer le joug, ils s'eloigment d'autant plus de la liberté que, prenant pour elle une licence effrénée qui lui est opposée, leurs révolutions les livrent presque toujours à des séducteurs qui ne font qu'aggraver leurs chaines.

Tocqueville foi o homem que melhor se ocupou dessa incompatibilidade. A igualdade só pode, portanto, ser imposta pela lei, em detrimento da liberdade.

No Contrato Social, ele declarou muito correta e claramente: "Cest précisément parce que la force des choses tend toujours à détruire l'égalité, que la force de la législation doit toujours tendre à la maintenir". Ele descreveu a substância do grupo como um corpo místico.

Na verdade, um novo sistema inquisitorial de controle do pensamento ia ser inaugurado e a censura hoje exercida pelos patrulheiros da intelectualidade de esquerda, nos meios acadêmicos e na imprensa, encontra suas raízes no pensamento paradoxal de Rousseau.

Converte em heróis o informante secreto e o agente provocador. Suas ideias levaram duzentos anos para amadurecer. Quando Rousseau escreveu "a consciência nunca nos engana O que sinto ser correto é correto, e o que sinto ser falso é falso", ele pretendeu combater o "dogmatismo" da Igreja.

Na realidade, estava lançando o alicerce de um subjetivismo moral que constitui o mais secreto e peçonhento veneno do romantismo político. Mesmo ao proclamar e influenciar o renascimento do sentimento religioso, estava Rousseau, em sua crítica à Igreja, contribuindo mais que os materialistas e ateus como Helvetius e Diderot para o ataque ao Cristianismo. Seus protetores foram os mesmos que descreveu como "essa canalha", "cette racaille'', Que l'on appele grand Seigneurs, Frippons sans probité, sans moeurs, Mangeant fièrement notre bien; Exigeant tout, n 'accordant rien.

Bergson acreditava que Rousseau representou a influência mais poderosa que houve sobre a mente humana desde Descartes. Goethe diria: "Com Voitaire o velho mundo termina. Com Rousseau um novo mundo se inicia. Isso, afinal de contas, apenas confirmaria uma das intuições mais originais de Rousseau. Céticos e às vezes ateus, embora mais comumente deístas, os pensadores da época barroca meditaram profundamente sobre moral, sobre política, sobre filosofia das leis e sobre a necessidade de mudanças sociais que o sentimento de justiça lhes inspirava.

O racionalismo fora atingido pelo pecado de superbia, o orgulho diabólico. Seria esse, precisamente, o objetivo do socialismo. Os racionalistas concebiam a capacidade do homem de construir a Utopia. Popper deseja substituir a Utopia pela 93 engenharia social. Mas se desejamos ser teológicos a seu respeito, poderíamos acentuar que o racionalismo nas ciências sociais é um caso de hubris" A ciência daria ao homem progresso ou o que chamamos hoje Desenvolvimento.

O Renascimento liberou o homem de suas cadeias conservadoras enquanto a Reforma e a Contra-Reforma abarcam, num vasto conflito interior, a grande crise espiritual do homem ocidental. Em seu aspecto mais sólido e criativo, alia-se o racionalismo francês à Aufklärung germânica e ao sólido pragmatismo britânico para engendrarem o estado moderno e a democracia liberal parlamentarista, como hoje os conhecemos. Mas antes de Descartes, outros colocam Francis Bacon como o primeiro pensador da nova Idade.

Bacon contribui com a ideia de utilidade. O objeto da ciência é melhorar a vida humana, aumentar nossa felicidade — commodis humanis inservire. Em sua Utopia, a New Atlantis, o chanceler inglês promove a ciência em seu valor social como caminho exclusivo para o progresso comum. É preciso varrer esse lixo do passado.

É mister estabelecer os alicerces da nova Idade. Imitando Bacon e Descartes, também devemos prosseguir nosso estudo com um exorcismo de nossa "sombra" intelectual. O valor do esprit systématique é proclamado por toda parte. As elites se consideram racionais.

Os reis querem governar racionalmente. Os ministros apregoam 95 reformas racionais e Boileau pontifica Aimez donc la raison, que toujours vos écrits Empruntent d'elle seule et leur lustre et leur prix O Romantismo interveio entrementes. Consideremos, entretanto, que eles tinham consciência de haver descoberto a arma definitiva do intelecto e imaginavam que, com ela, todo progresso seria possível. Comparemos, por exemplo, o que ocorre na Europa do Século das Luzes com as nossas próprias circunstâncias atuais brasileiras.

O racionalismo gera uma mentalidade. Libertavam-se do subdesenvolvimento, mas num sentido antes cultural, social e político do que propriamente econômico.

Imaginavam um novo mundo a construir que marcaria o triunfo da inteligência e é nesse momento, efetivamente, que o Mito do Progresso os empolga. As leis mecânicas transformaram-se em leis estatísticas. Os quanta. Tudo se transforma em abstrações Mas se assim é na vanguarda do pensamento, nós, que ainda permanecemos na retaguarda, ainda temos que passar pelo método, pela mecânica, pelo relógio, pelo esprit systématique, l'esprit de géométrie e pelo império tirânico dos fatos objetivos — para podermos avançar até o nível do desenvolvimento.

Vale notar que o Despotismo Esclarecido precedeu a teoria da liberdade, elaborada sobretudo pelos filósofos ingleses e pelo Romantismo de Rousseau.

Nem pregavam a derrubada violenta dos governos constituídos. O trauma inicial de sua carreira como escritor e filósofo subversivo ocorreu quando foi espancado por uma gang de brutamontes, a soldo de um aristocrata medíocre, o chevalier de Rohan, com o qual havia tido uma desavença a respeito da dignidade dos respectivos nomes.

A prepotência do homem, cioso de seus privilégios de família, foi o que irritara Voltaire. O protesto contra o arbítrio levouo à Bastilha e ao exílio na Inglaterra. Tocqueville escreveu que os franceses "veulent 1'égalité dans la liberté et, s'ils ne peuvent l'obtenir, ils la veulent encore dans 1'esclavage".

O tema é interessante. A lei é dura mas deve ser igual para todos. O senhor privilegia o protegido. O amigo, o amigo.

As virtudes republicanas exigiam, por exemplo, que um Brutus ou um Manlius Torquatus mandassem executar seus próprios filhos porque se haviam tornado culpados de crimes contra o Estado. Talvez o mais escandaloso de todos os privilégios é o esquema de refinado artifício, em consequência do qual ficam praticamente isentos do pagamento de imposto de renda os parlamentares, os magistrados e os militares — o que quer dizer, precisamente a "nobreza de espada e de toga" que governa este país como, no século XVIII, governava a França.

É nesse sentido que podemos sustentar a necessidade de superar a mentalidade de privilégio. Sem isso, jamais alcançaremos a tal famosa democracia que queremos O próprio Hume, por exemplo, negava absolutamente que um grupo de homens pudesse concluir um Contrato Social, sem audiência e concordância de seu soberano. A soberania estava expressa na fórmula concisa: "O Rei no Parlamento" O objetivo em todos os países é o mesmo.

Sem esquecer as considerações de segurança e poder nacional que desempenhavam, na época, enorme papel na consciência dos governantes. Essencialmente, o que se propunha era o império da lei.

As leis podem ser amenas, suaves e permissivas. Nem é a anarquia o sólido alicerce da democracia. O grande exemplo, a meu ver, deste sentido exaltado da autoridade racional-legal é a famosa história do moleiro de Sans Souci. O homem negou-se. O rei insistiu, ameaçou. No que diz respeito à Inglaterra, algumas observações preliminares se impõem. Déspota cruel e egoísta em seus atos caprichosos, decapitando esposas e amigos com a mesma sem-cerimônia com que mandava torturar selvagemente seus inimigos, Henrique Tudor consolidou todavia o poder do Parlamento, a ponto deste crescer sob a dinastia seguinte, a dos Stuart, e ser capaz de resistir vitoriosamente à tentativa absolutista do rei Carlos I.

Henrique VIII foi descrito como "um déspota sob as formas da lei" — o que bem explica os motivos de seu sucesso. É interessante notar que Samuel Huntington atribuiu aos Tudor as instituições que até hoje governam a América do Norte. Mas de qualquer forma, foram os anglo-saxões os primeiros que transitaram do feudalismo para a democracia moderna. Esses ministros eram grandes burgueses. Nos países escandinavos aparece um Struensee, na Dinamarca, que, por andar depressa demais, perdeu a cabeça.

Mas foi seguido de um Bernstorff e de um Reventlow. Na Suécia, é o próprio rei Gustavo III que procura introduzir as ideias filosóficas francesas, para revitalizar uma monarquia em franco declínio. É uma figura melancólica de potentado frustrado. Catarina era uma comediante perfeita. Foi tipicamente russa! Aos poucos, essa mentalidade brutalmente racional, disciplinada, agressiva, arregimentadora que, sob Bismarck, ergue o império guilhermino à altura de grande potência mundial, se corrompe com o veneno romântico do nacionalismo predatório, ao som das trombetas wagnerianas da Cavalgada das Walkírias e dos pronunciamentos grandiloquentes e proféticos do Zaratustra nietzscheano.

O Reich precipita-se, a si mesmo e ao mundo, na voragem de duas guerras mundiais, tornando-se a besta selvagem da Europa. A Espanha e Portugal também desfrutaram seus Déspotas Esclarecidos. A Espanha na pessoa de Aranda, Portugal na do terrível marquês de Pombal.

Obviamente porque, ao invés de reduzir a autoridade estatal, o propósito de Aranda e Pombal foi consolidar o Estado patrimonialista. Nessa época, é a leitura de Descartes proibida.

Sob Dona Maria I, tenta-se sistematicamente desfazer a obra de Pombal. O livro foi publicado em e posteriormente reeditado. Existe um relacionamento óbvio entre o esteticismo e a influência romântica sobre nossa cultura. O exibicionismo despudorado foi evidentemente inaugurado, no movimento romântico, pelo próprio Jean-Jacques Rousseau Mais recentemente, o romantismo tem invadido a própria teoria política.

Poderíamos chegar ao argumento de que o próprio sucesso do Marxismo em nossas plagas se prende às origens românticas do pensamento de Marx. O segredo do fascínio de Marx para nossos intelectuais reside, certamente, nessa postura antieconômica de que o dinheiro ou a propriedade é a origem de todos os males, de todos os pecados. Paulo a Timóteo, cap.

Havia, teoricamente, um leque de opções disponíveis. Fomos naturalmente buscar o modelo nas nações mais avançadas da Europa. Essas se tornaram, para nós, as sociedades exemplares. O Brasil preferiu seguir o exemplo britânico. Com o pretexto de que a monarquia era anacrônica e incompatível com a atmosfera progressista do Novo Mundo, desprezamos um regime que nos granjeara longa tranquilidade e evitara as misérias imperantes à nossa volta. Vejam a França que, desde , conheceu quinze regimes diversos.

E mesmo os países mais adiantados da América Latina como a Argentina, o Uruguai e o Chile, onde o sistema militar alterna com períodos de intranquilidade civil.

Todos nós sofremos de um mal endêmico. Afeta-nos uma espécie de profunda moléstia — um nosos como o qualificam os filósofos gregos — da qual só talvez a pequena Costa Rica haja escapado.

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É certamente uma ave rara nesta parte do mundo. Devem existir motivações profundas, de natureza psicossocial, que nos cabe investigar. James, longe também o Rio de Janeiro republicano da Washington americana. Fomos atraídos pelas aparências externas. Pela letra de suas constituições.

O espírito, porém, que nos inspirou era outro: era o do romantismo francês. Esta, segundo Vélez, originou-se na obra de Thomas Paine t O messianismo retórico de Paine teve efeitos perniciosos porque, inclusive, na genealogia das ideias, se transmitiu através de Saint-Simon e de Auguste Comte, como também salienta Ricardo Vélez.

Além de Rousseau, Vicente Barretto op. O padre destemperado ficou impressionado com as descrições de Bougainville sobre Taiti. O relato das viagens do almirante francês fora expurgado por Diderot de tudo que pudesse destoar do ambiente paradisíaco preconcebido pelo Mito do Paraíso Tropical e do Bom Selvagem.

Adiantando-se aos antropólogos e teólogos terceiro-mundistas de nossa própria época, Raynal alegava que "a ignorância dos selvagens num certo sentido esclareceu os povos civilizados". Foi também assim criado o messianismo bonapartista. Foram esses elementos de sua saga heroica e sangrenta que fascinaram as mentes imaturas dos latinos. O romântico é essencialmente o indivíduo possuído pelo incubo ideológico. O Método! Foi aplicado à política e surgiu o Estado moderno, burocraticamente organizado.

Isso acarreta seja nosso problema psicológico, no momento, frontalmente diverso daquele que tanto preocupou Jung.

Jung viveu numa Europa oprimida pelas cadeias do que ele, ardentemente, denunciou com os termos de "dogmatismo, intelectualismo e racionalismo". A falta que nos faz a lógica e a coerência. Precisamos recuperar o atraso: estamos à la recherche du temps perdu Nem poderia ser de outro modo. Poder-se-ia observar que existe método em nossa desordem, método em nossa afetividade derramada, método em nosso próprio irracionalismo, método sobretudo em nosso jeito de resolver problemas.

A fórmula do existencialismo erótico brasileiro também revela metodologia consistente: coito, ergo sum O Jeitinho No campo da política, é o método maquiavélico. No campo do pensamento político-filosófico, contamina-se de ideologias. É um pendor compensatório justificado. Seu intuito é pedagógico. Vale notar, contudo, que esse aspecto saliente da "ideologia" que presidiu ao regime de tem sido raramente mencionado nos estudos críticos feitos a respeito.

O liberalismo político no momento seria impossível. A sociedade liberal requer um Estado suficientemente forte para romper os elos da sociedade familística. Poderíamos deduzir das teses do sociólogo fluminense que as relações de domínio na estrutura da autoridade patrimonialista sedimentam-se como prolongamento dos poderes da família patriarcal. Em tal caso, os laços afetivos de relacionamento pessoal predominam sobre a estrutura abstrata da lei.

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O patrimonialismo estatal seria um prolongamento do patrimonialismo familiar. Confesso que, durante muitos anos, também acreditei nesse autoritarismo instrumental. Hoje, sou mais cético. Este conhecido "brazilianista" é autor de um dos livros mais interessantes sobre o período do regime de , Os militares na política. Elas seriam também infensas ao tipo de violento radicalismo militar que tem caracterizado, por exemplo, os exércitos argentino e peruano.

Vale notar que Stepan escreveu no apogeu do regime militar, tendo sobretudo a experiência positiva da presidência Castello Branco em vista. Naquilo que a imprensa local descreveu jocosamente como um "exílio auto-imposto", o desterro fora causado, na realidade, pelo contra-golpe do general Lott novembro de para assegurar a posse do presidente Kubitschek. Carlos Lacerda, no entanto, raciocinou de modo correto.

O exército, dizia ele, é "o partido da burguesia". E isso se revelou, dramaticamente, 15 anos depois. Na noite de 4 de abril de ocorreu talvez um dos mais importantes episódios que iam determinar o destino do movimento de De qualquer forma, no final de minha conversa com o professor Stepan, meditei sobre a sorte que estava reservada para o próprio Carlos Lacerda no regime militar.

Durante muito tempo estive convencido de que os anos de "linha dura" da presidência Castello Branco correspondem em nossa história ao "despotismo esclarecido" modernizante que antecedeu e preparou os fundamentos da democracia liberal representativa.

O país é hoje econômica e socialmente muito diferente do que era na década dos Mas o ponto principal do argumento é que, constantemente, em , , , , e, de novo, , o Estado patrimonialista socializante, ineficiente e centralizador tem saído reforçado de tais refregas. Ou de circunstâncias, ou de acasos infelizes, ou de conspirações externas.

A tendência natural é procurar causas exógenas, nunca indagar das causas endógenas. E por que nos é, normalmente, difícil admitir a nossa culpabilidade por erros, destemperos e misérias sofridas é que Sócrates propôs o conhecimento de si-próprio — Gnothe seauton — como o sublime princípio de toda sabedoria.

Essa sabedoria de autocrítica e exame de consciência tornou-se, através do Cristianismo, o fundamento da Filosofia Perene do Ocidente.

Tomemos um caso específico para exemplificar o que afirmo. Falemos de usura. Coitado do Brasil! Pediu inocentemente emprestado alguns biliõezinhos de dólares.

Queria honestamente superar o subdesenvolvimento. Pretendia celeremente debelar a pobreza. Foi apressadamente retirado das prateleiras bichadas o mofado Brasil, colônia de banqueiros de Gustavo Barroso. Protestemos ardentemente contra o roubo! Mas também, analisemos melhor e mais friamente o tema! Na Primeira Epístola a Timóteo , S. Paulo acentua que "a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro", assim confirmando o auri sacra fames Quid non mortalia pectora cogis, auri sacra fames de Virgílio.

É conhecida a tese de que os primórdios do capitalismo e do desenvolvimento econômico do Ocidente datam de fins do século XV, especialmente na Holanda, quando começa a fixar-se um limite legal, uma espécie de teto nas taxas de juros permitidas — libertando assim, ainda que parcialmente, o comércio do dinheiro.

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A usura é perseguida como crime acima de tais limites. Foram Turgot em França , Adam Smith e Jeremy Bentham na Inglaterra , os primeiros a atacar incisivamente a teimosa ideia de um controle legal sobre as taxas de juros. Em carta a um amigo, Sir John Bowring, enuncia claramente o princípio: "Nenhuma pessoa de idade madura e mente sadia, agindo livremente e com os olhos abertos, deveria ser impedida, tendo em vista alguma vantagem sua, de fazer tal negócio ao obter dinheiro conforme julgue adequado; nem deveria O ressentimento, em suma, é uma das mais poderosas e entranhadas reações humanas.

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Tanto a nível individual quanto coletivo, reconhece Bentham sua presença entre os devedores. Sem possuirmos jazidas de petróleo abundantes, tornamo-nos pesadamente dependentes do petróleo importado. Posteriormente, na década dos 70, conhecemos o "milagre" econômico. Estava agindo livremente e com os olhos abertos. A alternativa implicava, pois, mais esforço, mais austeridade, mais sacrifícios do que estava nossa sociedade disposta a oferecer.

Nem todos os povos se sentem inclinados a abandonar sua dolce vita A "nova ordem econômica internacional" que assim surgia nos caiu pesadamente na cabeça: os dois choques do petróleo de e elevaram os preços do barril importado para acima de trinta dólares.

Tratava-se de "reciclar" todo esse dinheiro. O triunfo do capitalismo é atribuído ao liberalismo holandês e britânico, e à emergência da burguesia empresarial como classe de vanguarda. É o que chama de Entzauberung der Welt. Em obra posterior, pretendo explorar com mais cuidado os aspectos éticos, de justiça, liberdade e eficiência, relacionados com o desenvolvimento capitalista.

Hoje, procuramos transcender o racionalismo positivista. O atraso "latino" é geral. Insistamos sobre esses aspectos psicológicos e culturais do problema. O comportamento torna-se mais frio e objetivo. A apostasia. Elas valorizam o trabalho.

Conciliar, em suma, a atividade da Avenida Paulista com o lazer da praia do Pepino Como Descartes, devemos começar duvidando de omnibus dubitandum. Como Bacon, devemos também derrubar os ídolos, no início de nossa tarefa.

Descartes acreditava que l'âme pense toujours Ou gente que pensa de maneira defeituosa. A política é o terreno eminente das paixões, dos mitos e do carisma quando pouco se pensa. É o reino maravilhoso do irracional, do emocional e do imprevisto. Nela a força atuante é a dos interesses e do instinto de poder, da vontade de domínio.

Impera o stupor mundi. Se conseguimos improvisar "soluções brasileiras" com nosso famoso jeito Que haja crítica. Governados por si mesmos, se possível.

Ou por outra, é encontrada num eterno postergar. Num eterno compromisso. Num adiamento sem fim em que permanece o impasse. Finalmente, como combater o Dinossauro em benefício do indivíduo livre, em uma sociedade justa e bem ordenada? A debater algumas dessas questões e a sugerir possíveis respostas se dedicam os capítulos subsequentes deste livro. Émile de Girardin O déspota moderno é a burocracia. Jules Michelet O aparelho do Estado centralizado Que é isso?

O Estado é o mais frio de todos os monstros frios. Mente friamente, e eis a mentira que de sua boca escapa: "Eu, o Estado, sou o povo". Isso é uma mentira! Foram criadores aqueles que criaram os povos e sobre eles estenderam uma fé e um amor: assim serviram a vida. Mas o Estado mente em todas as línguas do bem e do mal; em tudo que diz, mente; e tudo que possui, ele roubou Realmente, ninguém segura este país!

Mergulhamos no social-estatismo sem nunca haver saído do patriarcalismo patrimonialista e personalista. O Padim Cícero coexiste com a represa de Itaipu. A missa dos Quilombos com os aviões a jato da Embraer.

Paradoxos e contradições! Sofremos permanentemente da necessidade de imitar e diligenciamos por acompanhar o desenvolvimento da chamada "sociedade exemplar", a sociedade moderna da Europa ocidental e da América do Norte que se apresenta como modelo ideal de cultura.

A influência do ritmo externo, próprio da sociedade exemplar, perturba assim o ritmo interno, naturalmente mais lento. No que diz respeito à Heteronomia, ele assinalava que "país colonizado é uma coisa externamente e outra internamente.

Nas relações com os demais países somos forçados a nos revestir da forma dominante na esfera internacional". Humankind cannot bear very much reality, assinalava T. Ele precede, portanto, o sistema de autoridade que Max Weber qualifica de racional-legal, correspondendo antes à fase final do modelo de autoridade dito tradicional patrimonialista. Vejamos do que se trata. Um príncipe tem autoridade, por exemplo, porque é filho do rei.

A teoria do Estado patrimonialista é, entretanto, antiga. O estagirita alude aí ao tipo de "governo paternalista" em que o rei ou chefe do Estado governa como se a sociedade fosse sua propriedade doméstica. Seria o tipo de governo referido como "Sultanismo" ou "Despotismo Oriental''. Tomas Morus em sua Utopia, assim como no radicalismo de certas seitas Anabatistas de sua própria época Tomas Münzer, por exemplo.

Bodin antecipa nisso a Locke. Nelson Werneck Sodré é o papa desse debate estéril. O problema da estrutura originariamente patrimonialista de nosso país, no relacionamento com suas origens em Portugal, foi exaustivamente estudado por Raimundo Faoro, nos dois grossos tomos de Os donos do poder.

É pena. É um sistema indiscutivelmente feudal. O "coronelismo" representa a forma local de domínio personalista. Escreve ele: "Enquanto O governo deve fazer aquilo" Sem fazer esforço. Isso é realizado com o pretexto de proteger os infelizes correntistas e os empregados da empresa falida. O homem pode prejudicar irreparavelmente sua biografia se algum ilícito lhe for imputado. No individualismo liberal, capitalista, o Estado representa, realmente, uma entidade racional e abstrata, estruturada por lei e cuidadosamente segregada da esfera dos interesses privados, os quais se fazem representar nas instâncias adequadas do legislativo.

O papel predominante de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e um ou dois dos estados nordestinos é devido à sua disponibilidade em cooperar com o governo central, a fim de assegurar sua sobrevivência social e política. Nele, reuniu Oliveiros S. O estudo de Oliveiros Ferreira procura origens mais remotas ao sistema de oligarquia estatal.

Mas o autor assinala enfaticamente, citando Raimundo Faoro e sua obra Os donos do poder, que os burocratas brasileiros nasceram com o primeiro governo-geral, o de Tome de Souza. Poderíamos, contudo, argumentar com um tipo de racionalidade suigeneris, uma racionalidade determinada pelo critério dos interesses afetivos, ao invés de o serem por considerações abstratas de eficiência. O governador de S. As "revoluções" ocorrem. Mudam os regimes. Os governos se sucedem. Mas os mesmos políticos ou seus clientes conservam o poder de controle absoluto sobra a Cosa Nostra O testemunho de minha experiência pessoal, como burocrata do Serviço Exterior brasileiro, pode contribuir para reforçar esses conceitos de Buarque de Hollanda sobre o "patrimonialismo" do sistema administrativo brasileiro.

Nenhum deles preenchia as condições mínimas exigidas para a candidatura por concurso ao cargo inicial do Itamaraty. Queiram imaginar o estímulo que, para nós, concursados, representou aquele ato estupendo de privilégio patrimonialista! Prosperou uma verdadeira mentalidade de Cosa Nostra O dom da eficiência é algo profundamente subjetivo. Uma Graça, em suma A terra inculta e selvagem, desconhecida e remota, recebe a forma do alto e de longe, com a ordem administrativa da metrópole.

No exame dessas condições históricas, se sustentaria claramente o debate. Ali, bem no início do estabelecimento dos Pioneiros na Nova Inglaterra, a iniciativa coube aos colonos. Em segundo lugar, temos a massa rural de escravos ou caboclos semilivres. E, em terceiro, a "classe patrimonialista" dependente do Estado — raiz da futura burocracia dominante. Em tais condições, seria crível que o conservadorismo se transformasse na ideologia da classe patrimonialista urbana, ao passo que o liberalismo na da aristocracia rural.

Oliveira Lima, por outro lado, acentuaria em D. Corporifica um conjunto de poderes políticos, divididos entre a cabeça e os membros separados de acordo com o objeto do domínio, sem atentar para as funções diversas e privativas, fixadas em competências estanques. Esse crescimento prematuro do poder do Estado, consolidado subsequentemente e modernizado com o despotismo de Pombal, teria consequências ominosas.

Ele impediu o desenvolvimento do capitalismo industrial que é, essencialmente, fruto da iniciativa privada. O atraso ocorreu em virtude dessa ausência de raízes feudais profundas e da permanência teimosa de estruturas patrimonialistas centralizadas. O atavismo pombalino mascarado de democracia Schein und Sein. Ora, a filosofia econômica desse sistema político foi articulada pelo que os entendidos, sociólogos, cientistas políticos e economistas sempre dificilmente de acordo entre si!

No fundo, como aponta Antônio Paim, é ainda o espírito do marquês de Pombal que aqui impera. Poder nacional! No caso do Portugal de Pombal e José I, tratava-se de tentar modernizar o velho país, detendo-lhe a decadência evidente. A xenofobia era uma característica essencial do sistema.

Vale do Rio Doce só podem ser entendidas como produtos de uma mentalidade mercantilista. Todos os déspotas esclarecidos conduziram uma política natalista. Um dos jovens e brilhantes economistas americanos, de tendência liberalconservadora, George Gilder, lembra em Wealth and Poverty, N.

Hume proclamava como "lei dourada" da economia liberal o mercado capitalista que Adam Smith ia formular em Wealth of the Nations: a prosperidade dos outros contribui para a nossa própria.

John Stuart Mill foi o outro grande defensor do liberalismo econômico. O erro denunciado por Mill resulta da forma de pensamento quantitativo infantil hoje qualificada de zero sum game. O "fundamento das coisas" é, em suma, a capacidade criadora e expansiva do empresariado privado, o potencial produtivo crescente da iniciativa individual numa economia de mercado em progresso tecnológico.

Contudo, podemos observar que a teoria econômica da soma zero foi herdada pelo marxismo das teses terceiro-mundistas, sem esquecer a encíclica Populorum Progressio do "papa angustiado" Paulo VI. Um exemplo particularmente grotesco de tal argumento infelizmente muito vulgarizado! Esse argumento primitivo inspira hoje a chamada teoria da "dependência". Marx era internacionalista. O pensamento de Marx, contudo, insistia na fórmula simplista de que o enriquecimento de alguém só pode ser conseguido pelo empobrecimento de outrem.

O ressentimento constituía um dos grandes componentes de seu nacionalismo agressivo. O colapso do sistema mercantilista se coloca quando a Wealth of Nations de Adam Smith triunfa sobre o Inquiry into the Principles of Political Economy de Sir James Steuart, publicado dez anos antes, em Usam o sistema de troca, barter ou clearing.

O mesmo ocorreu na China de Mao Dzedong, de economia fechada em absoluta autarquia. Adam Smith finalmente triunfa. Vejam os seguintes casos, noticiados por um jornal do Rio, em julho de Iraci, portadora de síndrome labiríntica crônica, necessitava com urgência do medicamento argentino Tanakan, mas só o obteve após oito meses de luta.

Um candango que precisa obter uma carteira de identidade do INI de Brasília tem de tirar fotografia com paletó e gravata: só assim se "identifica" Por quê? Akiro e Emika, em japonês, nada significam. Em português tampouco. Um outro caso, noticiado na imprensa antes das eleições de 86, foi o de dois gêmeos, Almir e Alcir.

Resistiu muito. Mas acabou concordando. Era um problema simples. Isso era comum. Pensei que fosse chover O transeunte cospe na placa. A placa serve para tiro ao alvo.

Um sinal na calçada: "estacionamento proibido". Todo o mundo ali estaciona e de preferência os automóveis com placa branca, inclusive de juízes e legisladores. Fujamos dele! Cuidado ao atravessar a rua Hoje, Se Montesquieu nos visitasse, ficaria abismado com o modo como aqui apreciamos o Espírito das Leis. Jaguaribe, p. La volonté de bien faire supplée à tout, et celui qui sait écouter la voix de sa conscience n'en a guère besoin d'autre; mais la multitude des lois annonce deux choses également dangereuses, et qui marchent presque toujours ensemble: savoir que les lois sont mauvaises et qu'elles sont sans vigueur.

I — na liberdade de iniciativa". Dispõe ainda art. E o artigo conclui, triunfal: "às empresas privadas compete, preferencialmente, com o estímulo e o apoio do Estado, organizar e explorar as atividades econômicas".

Um banco falido? Uma companhia de ônibus? Os artigos 33 e 35 falam em decoro parlamentar e em subsídios, ameaçando com a perda do mandato: mas algum deputado jamais perdeu o mandato por votar duas vezes ou receber jetons sem comparecer às sessões? É uma pilhéria! O artigo proclama que "o amparo à cultura é dever do Estado".

Ninguém respeita a lei. É pena! E tendo leis abundantes, oferece muitas que lembram aquele dispositivo do código criminal do Império, o qual impunha severas penas sobre quem conspirasse para mudar, pela força, o regime vigente No entanto, como ex-burocrata do Itamaraty, permito-me falar. A proposta era sumamente interessante.

O problema, porém, consiste em saber fazer opções entre aqueles interesses, meios e atores mais capazes de atender às exigências do progresso do país.

A carrière representa, de certo modo, a elite da Nomenklatura brasileira, a fina-flor, o café-soçaite da Nova Classe. Em poucas palavras: o Itamaraty dispõe de interesses, de atores e de recursos, mas muito mal distribuídos e aproveitados. E talvez por isso tanto se fala, em discursos, em defender o interesse nacional.

Um exemplo imediatamente ilustra aquilo a que quero chegar. A Nigéria é hoje um dos principais mercados do país. Mas, o que dizer de Paris? É o mínimo que se possa dizer. Nem o próprio México, em cujas pegadas de social-estatismo corrupto gloriosamente trilhamos. Talvez o subdesenvolvimento técnico e a baixa qualidade do pessoal seja compensada, no subemprego, pela quantidade, mas a hipótese mais plausível é que se trata de empreguismo mesmo! Puro Kafka! E mais almirantes que navios na esquadra.

Eis o quadro de prodigalidade, desperdício, abuso e privilégio com que se deparou a "diplomacia de resultados". Foi também no Itamaraty que, certa vez, tive a sorte de pescar esta verdadeira pérola para meu colar de estórias sobre a burocracia brasileira: havíamos assinado um acordo com a Suíça para dispensar de visto os passaportes dos nossos respectivos nacionais, em viagem de turismo. Com tantos analfabetos, temos também mais professores que os Estados Unidos.

Exemplos desse tipo poderiam ser oferecidos ad nauseam. O ensino cria um gargalo dificilmente transponível. É um círculo vicioso. Interessante é também registrar que existem pouco mais de As demais permanecem sem existência legal. Esse me parece ser um dos exemplos mais flagrantes do conflito entre país real e país legal, para o qual os sociólogos insistentemente apontam, porém sem resultados.

Todas elas, ilegalmente vejam bem, se locupletam com o esbulho, cobrando uma taxa sobre todo ato realizado nos ofícios de Registro Civil, Registro de Imóveis, etc. Vejam, por exemplo, o seguinte caso: nascem aqui cerca de quatro e meio milhões de crianças por ano.

Dos quatro e meio milhões de bebês nascidos vivos, mais de Uma senhora, nossa amiga, se interessou no sentido de encontrar pais adotivos para o quinto filho natural de sua empregada doméstica. Por aí se pode ter uma ideia da percentagem relativa do investimento efetuado por Verena em benefício da infância brasileira. Possuímos em nossa linguagem popular uma palavra típica, intraduzível: bagunça. A concorrência elimina os incompetentes, como foi o caso da Panair.

Quando é resolvido o problema da eletricidade, surge o dos telefones. Tapam-se estes, escorregam as montanhas, caem os elevados. Vazam-se irregularmente os encanamentos.

Mas permanecem os do transporte coletivo, da limpeza urbana e, sobretudo, da segurança nas ruas e nas casas. Brasília, a cidade do futuro, a "nova capital", é também uma das mais sujas do planeta: lama, pó, detritos e lixo sobre os gramados. Ninguém pensa em bueiros e esgotos entupidos. Os municípios têm o governo que merecem E em alguns casos mesmo, a matar.

Lembram o tohu-bohu bíblico: "No princípio a terra era sem forma e vazia, e as trevas cobriam a face do abismo" Vejam os correios! No Brasil, em plena paz, pode ocorrer que Eu próprio recebi um Sedex com dez dias de atraso.

Mas a quem reclamar? Quatro dias depois. O nosso sociólogo, escrevendo sobre o encontro para a revista O Cruzeiro, acusou-me de, como diplomata, ignorar o Brasil e a ineficiência dos Correios e Telégrafos. Mal sabia ele que, só no Itamaraty, o telegrama havia demorado dois dias para ser despachado! Dizem que dez mil pessoas teriam acompanhado o Regente, futuro D.

A sede do Vice-Reinado tornou-se, subitamente, a capital do império colonial lusitano e era preciso arranjar emprego para todos os fidalgos necessitados. Meio século depois, Joaquim Nabuco descreveu os partidos políticos brasileiros como "cooperativas de empregos ou seguros contra a miséria". Paim, Rio, , p. O bacharelismo foi o primeiro capítulo da burocracia. O tempo passa — o problema permanece. O mal parece muito profundo para permitir tratamento.

É o do Cerimonial do Departamento Político Federal, utilizado unicamente para transportar o Embaixador, na entrega de credenciais, ou o ilustre visitante estrangeiro em cerimônia oficial. Em Brasília, existiriam 2. Vinte mil, pelo menos, com chapa fria.

Tudo realmente se estatiza em nosso país, tudo cai sob o domínio leviatânico do Estado patrimonialista. Hoje é difícil dizer se o carnaval é uma festa popular, um evento oficial ou, pior que isto, a mistura das duas coisas, sem que se saiba exatamente onde começa uma e termina a outra.

É verdade que as comparações de Trebat se relacionam quase sempre com outros países em desenvolvimento, principalmente da América Latina.

Trebat de qualquer forma condena a defesa ou a crítica do empresariado estatal em bases exclusivamente ideológicas. Até um dirigente do Partido Comunista se abalou a elogiar a iniciativa privada: melhor faria se abandonasse sua sovietofilia Um problema frequente na economia estatal brasileira é o incoercível ímpeto de autonomia das autarquias.

Essa autonomia seria evidentemente um fator que consideraríamos positivo, se as autarquias competissem livremente no mercado contra outras autarquias, trabalhando no mesmo terreno.

A diretoria da empresa resiste a tais intervenções. Do socialismo, o subemprego, a ociosidade, a ineficiência, sem o benefício do interesse social para o povo.

O tema de Stepan é o mesmo que estudaremos mais adiante sob o signo do "Mal latino". É um caso de libido dominandi Sobrevivem o foro, a enfíteuse e o laudêmio. O brasileiro é o "homem cordial", o "homem erótico", o homo ludens, o homem "amigo" de Bernanos — talvez mesmo o "homem bom" de Cas-siano Ricardo. Mas é também o "homem cartorial", que assim se chama por haver sido, outrora, descrito e classificado pelo professor Cartorius e outros filósofos ès-ciências administrativas contratados pelo ISEB.

Um de suas principais características é seu ar de importância. Com a maior simplicidade, Bull me respondeu, fornecendo exatamente os dados de que carecíamos. Na burocracia brasileira o que vale é o status. O mandarim tem que se dar ares de importância. A Persona é importantíssima!

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O conceito de manter a face. O ministro também descobriu que devia assinar até os aceites para que um material escolar fosse desembarcado no porto. Se se trata de um abacaxi, o expediente é imediatamente expelido. Pelé é sempre promovido Sobretudo aos chatos. Trata-se de um prodígio biológico: o parasita dos parasitas. Eros vence Anankê, a necessidade. É o jeitinho Passou-se o episódio quando foi obter um visto no Consulado do Brasil, para entrar em nosso país.

Forense Univ. O Evangelho segundo Marx. Convívio, A ideologia do séculoXX. A utopia brasileira. Itatiaia, Esse poder é absoluto, minucioso, regular, providente e suave. O principal capítulo, entretanto, "O dinossauro ou a burocracia brasileira", constou do livro Psicologia do subdesenvolvimento, editado pela APEC em e reeditado no mesmo ano. Racionalismo e romantismo, duas doenças da alma coletiva 2. Versalhes com o Rei-Sol. O absolutismo 3. Hobbes e o instinto de segurança 4.

Rousseau e o mal romântico 6. O Contrato Social 7. O despotismo esclarecido 8. Democracia e romantismo no Brasil 9. Mercantilismo e patrimonialismo O Mal Latino O Ogro filantrópico Burocratas ou intelectuais? O papel das elites no Brasil Seu suicídio. Mas temos sempre que enfrentar a realidade do moderno, o que quer dizer do futuro na prenhez do presente. Até princípios deste século, os que se negavam a aceitar as transformações aceleradas da realidade contemporânea eram tidos como "conservadores".

Monarquistas em matéria política. Às vezes racistas e antissemitas. Pio X condenou oficialmente o "modernismo" na encíclica Pascendi, de Entretanto, todos os povos, mesmo aqueles que mais detestam a América, se americanizam.

Certo: os terceiro-mundistas torcem pela vitória do nacional-socialismo marxista mas apostam errado e é isso, precisamente, o que compromete a mitologia que preside à política externa brasileira. É interessante destacar os sintomas da nostalgia folclórica dos que resistem ao "choque do futuro" — as fantasias do complexo de retorno ao ventre materno daqueles mesmos que se consideram os machistas do "progressivismo".

Com a energia do desespero na mitologia romântica do Bom Selvagem procuram os motivos para suas elucubrações saudosistas. Novus Ordo Saeclorum O homem criador explora o desconhecido, avança no imprevisível, liberta o indeterminado. O homem criador arrisca-se. Avançar é arriscar. O futuro pertence aos que pensam e intuem. A ideia de que cabe ainda ao Estado ajudar os pobres, estimular o desenvolvimento e garantir o crescimento industrial do país é relativamente recente.

O Estado apareceu como um Salvador predestinado. O anarquismo converteu-se num liberalismo mais moderado. Como acentua J. Revel artigo em Le Point, , o que a nova sensibilidade liberal rejeita é um Estado que pretenda trazer a felicidade ao conjunto da sociedade, ao mesmo tempo em que tira-niza cada um dos indivíduos que a compõem. Segundo o ilustre jornalista e escritor francês foi por volta de que o "estoque" de ideias que se havia acumulado após a segunda guerra mundial e reforçado na década dos 60 — passou a ser contestado e liquidado.

É de o livro de Benoist, Marx est mort Mas de qualquer forma, no decorrer da década dos 70, lentamente o pêndulo balançou para o outro lado. A esquerda marxista e socialista tornou-se cética, cínica, pessimista.

O fato é que o pensamento marxista em França esgotou-se, fenômeno perfeitamente simbolizado na cuca doente de um Althusser ou de um Lacan. Os Novos Filósofos gozam do atrativo adicional de haverem, na juventude, fumado o ópio dos intelectuais.

Escrevem, por isso, com o fervor paulínico de novos conversos, denunciando os horrores do totalitarismo. Le Pen a receber mais votos que o PCF.

A Dama de Ferro foi aquela que, com maior tenacidade e coragem, se propôs liquidar com o monstruoso edifício do Welfare e do sindicalismo, que havia sido montado desde e marcou a decadência do Reino Unido. O social-estatismo populista mantém-se como alternativa dominante nos países da Europa meridional, isto é, justamente nos mais atrasados e naqueles que, por mais tempo, foram afetados por ditadores direitistas estatizantes: a Espanha, Portugal e a Grécia.

Traço comum das novas tendências liberal-conservadoras é recolocar em 9 foco a legitimidade do anticomunismo, apontando para a crescente ameaça do imperialismo soviétivo.

A popularidade de Reagan ultrapassa hoje a de Roosevelt e Kennedy. Promovem o patrulhamento Benoist, Lepage, Revel. Na Inglaterra, uma série importante de pensadores acentuou o declínio do socialismo dos Fabianos que haviam conduzido ao impasse sindicalista.

É pluralista, às vezes ambíguo e sempre dificilmente passível de definições. Mantém-se, contudo, a ambiguidade do termo "liberal" que, nos EUA, carrega um ranço esquerdista socializante, mais condizente com as tradições populistas da linha romântica de Jefferson, Paine e Jackson do que com os componentes verdadeiramente liberais de Trata-se, isso sim, de impor uma forte autoridade moral que, sobre o alicerce das virtudes privadas e a consciência da responsabilidade, possa erguer o majestoso 11 edifício da liberdade individual.

O tema liberal tem que ser ventilado. Mas nem tudo o que podemos fazer é esperar que o festival de tolice se esgote por si mesmo, antes que um aventureiro populista possa empolgar o poder vacante.

Tais as questões que merecem ser levantadas no amplo debate. Foi o segundo que alimentou o movimento socialista estatizante mas, no mundo ocidental, se impõe novamente o retorno ao primeiro. À luz dessas considerações, a pergunta que permanece é: que fazer no Brasil? Nosso país atrasa-se. Como sempre, mentalmente subdesenvolvido. Quem constitui a velhíssima "Nova Classe", os intelectuais ou os burocratas?

The center cannot hold. Mere anarchy is loose upon the world. The blood-dimmed tide is loosed and everywhere The ceremony of innocence is drowned. The best lack all conviction and the worst Are full of passionate intensity. William B. Yeats Rompem-se as coisas. Mera anarquia anda solta sobre o mundo. As correntes místicas da época moderna, o renascimento da astrologia e do ocultismo, o próprio sucesso da psicologia de C.

O humanismo transformou o homem em medida de todas as 16 coisas. O triunfo do método e do metodismo. O Romantismo foi por ele assaltado com aspereza desenfreada nas pessoas de Rousseau e de Wagner.

Ora, possuía o psicólogo uma experiência relativamente limitada de pacientes de origem latina — italianos, espanhóis, outros nacionais da Europa mediterrânica e sul-americanos. Eles ouvem o conselho de Rousseau: "Eu sempre sinto antes de pensar. Sou o animal mais sensível da terra" Ouvem igualmente o de Goethe: Gefühl ist Alies Na verdade, Mme.

E uma tendência poética natural, uma característica musical inata. As erupções românticas de Gemütlichkeit comumente cheiram a cerveja. Na verdade, o herói latino típico é eminentemente romântico. Hamlet, por outro lado, esse pensador introvertido e angustiado, é necessariamente um nórdico.

Nenhum espanhol requer os ensinamentos de Freud para ser 20 persuadido do papel predominante em sua alma desempenhada pela libido sexual. Soy contra! Afetos extravertidos e intuições profundas constituem as funções de referência usual do latino, para serem usadas em suas reações artísticas e musicais perante o mundo. E inclusive nos campos político e social. Por isso sempre caracterizei o brasileiro como um afetivo intuitivo. Ambos os movimentos constituem, mutatis mutandis, formas reativas inconscientes nessas duas sociedades.

Entre as personalidades escolhi Thomas Hobbes para retratar a postura racionalista extremada e Jean-Jacques Rousseau como representante do fenômeno romântico. Uma peça teatral no estilo de uma ópera de Lulli em que o Rei-Sol desempenhava o papel de estrela principal. À sua glória desejava acrescer ao cercar-se de homens a quem as Musas haviam amado.

A França era sua plateia e patrimônio. Afinal de contas, era Apoio, o Rei-Sol, o centro do Universo. Sua generosidade para com o talento estimulou o florescimento do gênio francês. Nunca, desde os tempos de Péricles e de Augusto, ou desde a Renascença italiana, um tamanho lustre fora testemunhado: La docte antiquité, dans toute sa durée, À l'égal de nos jours ne fut point éclairée Na verdade, o sol do Rei brilhou, com uma tal claridade que a época se qualificou orgulhosamente de "o Século das Luzes".

E os contemporâneos se declararam ofuscados! O poder absoluto patrimonialista. Invade o Ocidente com os projetos de Alexandre em Heliópolis. Em Constantinopla, o herdeiro da coroa era o Porfirogêneta. Refletiu a cosmologia mecânica de Copérnico, Kepler, Galileu e Newton. É verdade que essa arte é uma arte intelectual. O mesmo que ocorreria em nosso século em personalidades paranoicas como as de Hitler, Stalin e Pol Pot. Esse fenômeno pode atingir pessoas sobrepujadas por novos conhecimentos ou por novas realizações: "O conhecimento infla", escreveu S.

Paulo aos Coríntios. Os racionalistas tendiam a desvalorizar esse simbolismo. Seriam escapadas românticas para o sonho. Ilusões estupendas a inflamar com sensualidade o domínio frio dos espaços e as abstrações geométricas da "arquitetura da inteligência". Entretanto, uma vez reduzida a linguagem dos símbolos a algo que só pode ser compreendido quando externalizado em arte, perde inteiramente seu poder sobre o espírito humano: torna-se artificial e morre.

O Romantismo representa uma tentativa fracassada de dar nova vida aos símbolos. Por outro lado, a tentativa intelectualista de "explicar" o mito solar conduz ao absurdo completo, como quando escreveu Renan: " Com a lógica de tal argumento, o animismo da mitologia primitiva é declarado "científico e racional"! É essa a atitude paradoxal dos positivistas. O elemento coletivo é muito frequentemente anunciado por sintomas peculiares como, por exemplo, sonhos onde o sujeito se vê ou se sente voando pelos espaços como um cometa, ou pensa que é a Terra, ou o Sol, ou uma estrela".

Criou-se uma Persona fenomenal. Os interiores se carregaram de pesadas decorações douradas. Descartes postulou, enfaticamente, que todas as ações de valor emanam de grandes personalidades. Por toda parte fórmulas sacrílegas foram inventadas ou ressuscitadas: Gesta Dei per Francos, Gott mit uns, Dieu et mon Droit, Deutschland über alles No final das contas, o rei acabou perdendo a cabeça.

Mas, logo em seguida, foi a vez de Paris, a capital do latim caput, cabeça , de inchar e acrescer de modo patológico.

Atravessou crises sérias em , , , fevereiro e junho de , , , , , , , e Ela apenas ofereceu, a esse respeito, graças ao brilho invulgar e à lógica da inteligência francesa, os sintomas mais visíveis da doença. Na Alemanha, efetivamente, deveria causar calamidades mais terríveis do que em França, tanto em detrimento de si próprio quanto do resto do mundo.

O gozo excessivo de liberdade incontrolada desinibe, porém, as forças do mal. A libertinagem aumenta a desordem, estimula o crime e o abuso. E assim como antes acompanhara o herói que, diante de seus olhos, fizera brilhar a chama ofuscante da liberdade, recebe agora, com alívio, a autoridade draconiana daquele que reconstitui a ordem, restabelece a segurança e garante a subsistência. Muitos séculos de invasões e de flagelos naturais, como a fome e as epidemias, 30 escarmentaram seus povos no sentido de seriamente pensarem no futuro.

Esse o sentido literal da previdência social, o welfare. O Princípio do Nirvana de que fala Freud pode ser um dos que orientam o comportamento humano. Acarreta também o tédio As teocracias seculares comunistas da Europa oriental oferecem condições semelhantes. Ali pediram e obtiveram asilo político nos Estados Unidos, onde foram viver. O cônsul russo naturalmente convocou imediatamente a imprensa local para entrevistar o rapaz. A filosofia do socialismo seria, justamente, a de proporcionar segurança econômica — segurança contra os lances adversos da empresa privada, azares notórios, riscos de falência, de desemprego, de miséria.

Em grau extremo, fala-se mesmo em "capitalismo selvagem" Segurança econômica. Repitamos: levado ao extremo, o socialismo promete a gaiola de ouro Ora, é essa segurança que, no Brasil como em muitos países latinos, ainda só pode ser encontrada no âmago da Grande Família patriarcal e do círculo restrito dos amigos e clientes. O problema evoca profundas meditações filosóficas do domínio da ética.

Na história da filosofia, esses dois regimes procurariam legitimar-se através de duas metafísicas igualmente contraditórias, sendo que a primeira enfatizaria a crueldade essencial do homem, ao passo que a segunda alardearia a crença em sua bondade natural. Mencionemos apenas suas origens teológicas no Maniqueísmo, no Pelagianismo e no pensamento central de Sto.

É a mesma linha de pensamento que inspirou lord Acton em seu famoso aforismo: "O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente". A ideia de Sartre que "l'enfer, c'est les autres" O tema que nos ocupa é, portanto, da mais lídima atualidade. Ele evocou o Leviathan da Bíblia. Hobbes, obviamente, conhecia essa procedência da palavra. O poder é perverso, o poder é corruptor e diabólico. O Estado, por conseguinte, é mau. E tanto pior quanto mais poderoso.

Mais profundo do que Maquiavel, pressentiu as contradições em que se formava o Estado, secularizado pela Reforma e pela decadência do poder da Igreja de Roma, e ressacralizado pela monarquia absoluta. Toma Hobbes de Sto. Seu método é o de definições causais inteiramente despidas de colorido emocional. Seu positivismo legal é absoluto. O Príncipe maquiavélico é perfeitamente consciente de seus objetivos.

Hobbes ofereceu uma base mais teórica para a estrutura do "corpo artificial" que constitui o Estado maquiavélico e da "alma artificial" que é a Soberania nacional.

O arrazoado é o seguinte: no estado de natureza vigora uma liberdade total. Mas essa liberdade, por ser o homem um ente agressivo e cruel, é a da luta ou da guerra de todos contra todos bellum omnium contra omnes. Eis aí proclamado o famoso aforismo homo hominis lupus. Aforismo oriundo de Plauto na Asinaria que transforma o povo num animal feroz, necessitante de uma ordem repressiva.

Ora, se consideramos as coisas em seu conjunto, todo homem é igual a um outro O homem é o lobo do homem homo hominis lupus. Numa tal guerra, nada é injusto, nem o pode ser Eis o estado de natureza. Verificamos que, na verdade, o que domina na psicologia de Hobbes tanto é o impulso de domínio, a agressividade, a vontade de poder, quanto o medo. Na época, um pensador que mal se colocasse em política corria o risco de sentir a cabeça decepada a machado, por ordem do rei, de Cromwell ou do Parlamento.

Em nosso século, foi Adler, o psicanalista dissidente da escola de Freud, aquele que melhor analisou o problema: o complexo do medo. O processo é teleológico: o desejo de segurança coletiva impõe suas regras. Pois a psicologia de Hobbes só pode ser compreendida na base de um pensamento exclusivamente preocupado com o interesse próprio, sofrendo do medo onipresente de aniquilamento fatal.

Surge o mesmo problema da ordem social que Hobbes levantara. A crença é constante na Filosofia Perene. Uma vez que os homens concordaram em se submeter a um líder ou a uma elite uma "assembleia de homens" escolhidos , a esse líder ou a essa aristocracia "submetem suas vontades, a cada um sua vontade, e seu julgamento a seu julgamento". Nessa obra, o pragmatismo e relativismo de Hobbes é absoluto: ele acaba declarando que o governo é bom e legítimo quando o povo o aceita como bom e legítimo; é mau e tirânico quando o povo assim o considera.

Nada mais. Tratava-se, simplesmente, de institucionalizar a liberdade que, essa sim, permite a mudança, a reforma e o progresso. Em sua História da filosofia ocidental, Russell considera Hobbes o primeiro escritor realmente moderno no campo da teoria política. Um slogan do tipo "mais vale ser vermelho, do que morto" better red, than dead pode ser matematicamente deduzido, pelo positivismo lógico de Russell, da premissa hobbesiana segundo a qual o homem inteligente deve fazer a entrega de sua liberdade ao Estado por medo da morte Cabe aqui um parêntese para lembrar a figura de John of Salisbury e suas intuições sobre apleonexia do poder.

Thomas à Becket, o célebre arcebispo de Canterbury assassinado em sua catedral por ordem do rei Henrique II. Foi também um dos melhores latinistas e eruditos de seu tempo. Colheu, contudo, elementos na filosofia grega. Foi um dos primeiros a formular uma defesa em regra do tiranicídio: provavelmente fora traumatizado pelo assassinato de S.

Thomas, seu mestre. A diferença entre o soberano e o tirano é que o primeiro obedece às leis, das quais se considera o servidor, ao passo que o segundo delas se liberta. Voegelin, entretanto, salienta que, antes de Hobbes, foi Salisbury um dos primeiros a conceber o homem autônomo, o indivíduo que, igonorando seu status exato e sua obediência a Deus, "aspira a uma espécie de liberdade fictícia em suas próprias palavras , imaginando displicentemente que pode viver sem medo e fazer com impunidade o que quer que lhe agrade e, de certo modo, sentir-se logo como um deus" VIII.

Por essas palavras, Voegelin considera John of Salisbury um precursor de Hobbes por força de sua capacidade de denunciar a libido dominandi em todos nós. Um outro autor teuto-americano, Leo Strauss, aprofundou-se ainda mais diretamente no estudo da relevância do filósofo inglês para a época moderna.

Varia com esta à mercê das decisões do Estado, que é produto do egoísmo. A tese prosperaria com Hegel e com os cultores do direito positivo. Considerava, com isso, o indivíduo basicamente associal. Devemos, naturalmente, admitir que Hobbes acreditava nos postulados de onde deduziu a monstruosa tese de absolutismo lógico.

Harald Höffding A History of Modem Philosophy admite igualmente que Hobbes seja importante "principalmente pela clareza com a qual expôs as limitações da hipótese materialista". Mas o trabalho intelectual consciente, baseado nos postulados exigentes do materialismo racionalista, deve haver evocado os monstros mais terríveis na sombra da psique de Hobbes.

Estes fantasmas só se tornam manifestos para o agudo observador quando descobre os vícios de rigidez, o pessimismo e as contradições internas de sua vida e de seu pensamento. Se pensava realizar a façanha no campo da política, nada o impedia de esperar alcançar sucesso do mesmo quilate no terreno da geometria, ciência que representaria o próprio fundamento das demais.

Ele observa que, na tentativa de estabelecer os inícios concretos do pensamento político moderno, mormente no que diz respeito ao crescimento teratológico do poder do Estado, a maioria dos autores aponta para Thomas Hobbes.

Lehman aponta corretamente para essa ominosa tendência que se coloca, muito precisamente, no momento do Renascimento e da Reforma protestante.

O retorno à teologia política do paganismo se coloca, em princípio, na obra de Hobbes. Lehman insiste nas consequências igualmente relevantes do tratado De Cive, publicado por Hobbes em , nove anos antes do Leviathan. Para Pierre Legendre, em Jouir du Pouvoir, o Estado moderno nada mais é, realmente, que um grande crocodilo ou baleia faminta, cruamente localizado por Hobbes sob a alegoria bíblica.

Vale novamente citar o trecho relevante da obra de Hobbes: " Agostinho, De Civitate Dei, com referência crítica à doutrina de Marcus Varro, um autor político do primeiro século antes de Cristo e famoso patriota erudito. O Racionalismo hobbesiano levanta outros problemas. Hobbes foi talvez, com Maquiavel, o primeiro a negar a existência de valores morais absolutos e a propor a tese de que a sociedade é apenas determinada por interesses. Na realidade, os valores devem ser logicamente deduzidos de sua utilidade.

Toda lei tem um propósito positivo, conforme aos interesses do grupo, da classe ou do soberano que a decretou. A Utilidade da classe, da raça e da nacionalidade conduz indefectivelmente ao sistema hobbesiano.

Como poderia ser de outro modo, se os critérios transcendentes dos valores tradicionais têm uma origem que nos escapa? O Estado existe em virtude do Mal. Nós mesmos, em nosso país, estamos assistindo, no momento histórico que atravessamos, ao conflito evidente entre as exigências contraditórias da Liberdade e da Segurança.

A política é a arte do possível A Europa constitui para nós a "sociedade exemplar". Descobrimo-lo nas bases de toda a cultura europeia e, por consequência, nos países que, como o Brasil, embora plasmados no irracionalismo natural dos povos ainda psicologicamente imaturos ou subdesenvolvidos, sofreram a influência da literatura, das artes e das modas da "sociedade exemplar" em seu período formativo.

A inteligência, por sua vez, transformou-se, frequentemente, num veículo de paixões reprimidas, a serviço de ressentimentos suspeitos. Desempenharam as mulheres, como egéries, um papel de primeiro plano no contexto claro e formal do classicismo francês. Nos séculos XVII e XVIII afirma-se a presença feminina nos negócios mundanos, no gosto e na moda, na literatura, nos padrões artísticos e no controle dos segredos de estado.

Idade de elegância, refinamento e galantaria! Os reis mais poderosos submetiam-se aos bons conselhos ou caprichos das mulheres: "Qu'en pense Ninon de Lenclos? A graça da cortesia desenvolveu-se.

O papel da femme inspiratrice, no perfeito equilíbrio alcançado pela cultura barroca francesa, lembra a tese de Jung concernente ao lado feminino da alma masculina que ele denomina de Anima.

Mas, depois, foi o desastre! Madame du Deffand, a célebre patroa de um dos mais prestigiosos salons parisienses onde se reunia a fina flor dos philosophes, costumava matutar: "Il me faut absolument des malheureux pour en faire des heureux" Superbia et Concupiscencia! Seria essa a crença de Hobbes, por exemplo. Divorciavam-se de ambos. Afastavam-se do Centro Divino em que se sustenta a ordem da alma. Prevenia também contra dois exageros: "exclure la raison, n'admettre que la raison".

Citado por Pascal, ensinava Sto. O marquês de Sade a persegue metódica e deliberadamente. É esse homem tribal instintivo que ergueria a cabeça para flagelar a Europa em agosto de e em setembro de — orgulhando-se de seus instintos, mesmo quando se proclamando instrumento de uma nova e mais alta forma de Kultur. Entretanto, acreditava Jean-Jacques que "um homem pensante é um animal depravado"!

Nascido para a felicidade terrena, De alta linhagem, de esplêndido vigor, Porém, por desgraça, perdido por ti mesmo, Eis que, da juventude, és levado na flor. Destinado a grandes conquistas e a uma glória brilhante, a descobertas e invenções magníficas nos reinos deste mundo — mas também a uma catastrófica débâcle nos domínios da alma! Recusavam-se, entretanto, obstinadamente, a transcender o âmbito estreito que haviam estabelecido para sua própria consciência orgulhosa e satisfeita.

Política e socialmente, o sonho construtivista-utópico se manifestaria na obra de homens como Fourier, Owen, Saint-Simon e Proudhon — o socialismo em seus primórdios. Um novo patamar espiritual.

Essa é a tarefa que incumbe às elites dos países chamados subdesenvolvidos, a tarefa que incumbe às elites brasileiras. Para alguns é o Individualismo, para outros o Materialismo, ou ainda o Liberalismo, o Modernismo, o Gnosticismo ou o Agnosticismo, o Utopianismo, o Nominalismo, o Secularismo, o Coletivismo ou qualquer outro ismo ideológico. Anthony Burgess descobriu o Pelagianismo liberal. No momento, quero explorar apenas uma: o mal romântico.

É também ao romantismo como fenômeno religioso e aí se torna pertinente a lembrança de Pelagius, eis que o teólogo britânico do século quarto teria sido o primeiro pensador romântico do Ocidente. O que é o Romantismo? Trata-se certamente de um dos movimentos históricos mais polêmicos que se conhece. Alguns traços característicos, porém, podem ser esboçados. É um fenômeno de adolescência cultural — talvez a adolescência do mundo moderno pós-industrial, pois quase todo garoto na puberdade apresenta sinais indiscutíveis de desarvoramento romântico.

Um protesto contra as restrições e a rigidez artificial da Persona gigantesca que se formara no Século das Luzes. Nos meios românticos mais radicais, o movimento implicou a liberdade de retorno à natureza, de tal modo que alguns tupiniquins chegaram a propor a Utopia Selvagem. Na pintura, o Romantismo ia claramente rebelar-se contra a arte acadêmica que Claude Lorrain, Poussin e David haviam imposto à francesa.

A pintura romântica atrasou-se e só triunfou na verdade a partir de , evoluindo no final do século para o Impressionismo e o Expressionismo. Aparecem também os primeiros Surrealistas como o suíço Füssli e William Blake, que também foi um poeta e místico profético que escapa dos aspectos mais banais do Romantismo.

Edvard Munch. Os dois maiores exemplos foram Mme. George Sand talvez tenha definido uma das exigências típicas 62 do Romantismo quando escreveu: "Le vrai est trop simple, il fauty arriver toujours par le complique" em carta a Armand Barbes.

Alguns foram combater na Grécia: Byron, uma espécie de Che Guevara Sobre a influência do Romantismo na política brasileira, nos referiremos mais adiante. É tema e argumento fundamentais. O Mal Romântico implica o culto do amor, do sangue e da morte. É um pathos. Estou completamente absorvido pela ideia. Estou enlouquecido, obcecado pelo seu romantismo My name is death, cantaria Southey: the last best friend am I.

O romântico percebe que a morte é a suprema violência que sofre o indivíduo. Harold Nicolson num artigo na revista Horizon, maio de , vol. De um certo modo, pensa Nicolson, corresponderia a um progresso do senso estético para além dos cânones em vigor desde a época helenística.

Podemos aqui recordar Voltaire e citar Boileau. Em L'Art Poétique, Boileau havia aconselhado a seguir fielmente as regras draconianas do estilo. Boileau pontificava: Faltes choix d'un censeur solide et salutaire, Que la raison conduise et le savoir éclaire. As grandes damas, os aristocratas, os reis, os pensadores orgulhavam-se da intensidade de suas paixões, da finura de sua sensibilidade, da beleza de suas virtudes, das agruras de seus amores.

Os impulsos que o Cristianismo austero havia tentado conter pelo medo do castigo eterno, expandiam-se agora livremente sob o pretexto de que o homem era "bom".

Ou da rainha Guinevère e Lancellot du Lac do ciclo arturiano. É sempre a Libido em revolta contra o intelecto frio.

A forma política mais comum do romantismo político é o chamado Culto da Personalidade do herói salvador e messiânico. Luís Carlos Prestes em certa época foi o Cavaleiro da Esperança: a lenda arturiana e sebastianista permanentemente renasce em nossa terra. Estaria hoje aplaudindo o comandante Ortega ou o coronel Gadafi. Enfim, a escolha de Ortega denunciaria uma certa decadência dos modelos heroicos, desde as décadas triunfantes de Hitler, Mussolini e Stalin.

Vejam o caso de Bonaparte. A epopéia napoleônica inicialmente fascinou todos os poetas românticos, como assinala Harold Nicolson. A arte francesa de princípios do século XIX — Style Empire — quase que invariavelmente celebra a grandeza do herói. Hegel, por sua vez, veria no general vitorioso em Iena o próprio Weltgeist, o Espírito do Mundo montado em seu cavalo branco. Mas a legenda e a epopeia perdurariam por mais de cem anos, acometendo todos os líderes que surgiam na América 66 Latina e estendendo-se posteriormente ao chamado Terceiro Mundo.

O suicídio e o homicídio com rebuscadas lucubrações cerebrinas. Isso de modo algum implica a tese de que os elementos passionais e rebeldes do Romantismo se tenham evaporado como por encanto: o mal tomou novas formas. Do mesmo modo, a década de a em nossa própria época. Seu argumento era estritamente racional. Seguia, nesse ponto, o otimismo de lord Shaftesbury para quem a natureza humana é a melhor possível num mundo o mais harmonioso possível o melhor dos mundos possíveis de Leibniz.

Em vez de um complexo de inferioridade adleriano, escravizado ao Logos do monarca absoluto, Rousseau pretendeu construir sua sociedade ideal nos alicerces movediços de um Eros extravertido. É relevante, no contexto de nosso argumento, observar essas diferenças entre os pensadores racionalistas e os Românticos. Todo o problema de Rousseau consiste em procurar meios de conciliar a Liberdade, definida como o jogo aberto e sem constrangimento dos sentimentos naturais, com a existência de uma sociedade civilizada a qual é considerada, essa sim, summum malum.

L'enfer c'est les autres O mito do Bom Selvagem aparece na Europa com o Renascimento. Tratava-se de, se possível, corrigir e desmascarar a Persona excessivamente pretensiosa do aristocrata do século de Luís XIV, com sua cabeleira postiça e seus punhos de renda.

Sobre os índios escreve ele: " Na falta de animais de quatro patas, serviam os índios para o efeito procurado. As Isles flottantes de Morelly oferecem um exemplo da utopia nesse espírito de nudismo tropical e liberdade sexual que dominou a época e domina a nossa Rousseau teve a capacidade de formalizar o mito em teoria. E a teoria tornou-se uma tremenda ideia-força. O homem que pensa seria para ele um animal depravado. Em seu Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, procura Rousseau sustentar esses preconceitos, argumentando no sentido de que a anatomia comparada indica ter sido nossa espécie, originariamente, um bípede frutívoro.

Diderot aconselhava: "Gozai sem susto Sede felizes O homem, sendo bom em estado de natureza, cabe à sociedade a culpa inteira pelos seus crimes. O relacionamento e interdependência social constituem a fonte de todos os males. Rousseau acentuava possuir "provas fatais" de sua estranha teoria.

Os homens tornam-se infelizes e maldosos ao se socializarem. Comecemos por afastar todos os fatos, "car ils ne touchent point à la question". No entanto, descreve os camponeses da Suíça, isolados em seus altos vales alpestres, como o paradigma supremo da felicidade para a humanidade. Rousseau se coloca definitivamente contra esse grande ídolo do século XX que chamamos de desenvolvimento: ele é, na verdade, o primeiro profeta do modo de vida dos hippies.

O primeiro cantor de rock. Tais caprichos do destino frequentemente ocorrem O poder de seus livros sobre nosso próprio século resulta do fato de que representa ambas as correntes, ambos os lados do nosos que ainda nos afeta.

Nesse debate, uns elogiam e compreendem, com simpatia, sua vida e obra. George Sand o chamou de Santo Rousseau. Em seu favor recebeu os elogios de homens ilustres como Kant, Schiller e Tolstoi.

Lord Acton acreditou que a pena de Rousseau "produziu maiores efeitos que a de Aristóteles, ou de Cícero, Sto. Agostinho ou S. E, mais recentemente, o antropólogo Lévi-Strauss teceu salmos de louvor estruturalista ao grande sofista.

Grimm, outro velho amigo, acabou detestando-o. Huizinga observa: "Todo esse palavreado audacioso contradiz frontalmente outros trechos do mesmo livro. Na verdade, em sua obra, o sonho se mistura com a lógica. Sempre confessou o próprio Rousseau que permanece "o mais agudo conflito de interpretações" sobre seu pensamento. Donde a diversidade caleidoscópica de sua influência. Entretanto, Jean-Marie Benoist, o jovem liberal-conservador francês, pede desculpas por ainda o admirar Na maior parte das vezes indigesto, confuso e anódino.

Na verdade, todo o trabalho de Rousseau pode ser compreendido como uma tentativa egomaníaca de racionalizar e exprimir logicamente as experiências de típico puer aeternus, de eterno adolescente emocional.

Confessou-se publicamente. Quase masoquisticamente. O mal du siècle também bate tambor em Chateaubriand e no spleen do Childe Harold de Byron. Je me trouve si bizarrement disposé à cet egard, qu'ètant un jour aborde par deux personnes à la fois, avec 1'une desquelles j'avais accoutume d'être gai jusqu'à la folie, et plus ténébreux qu'Héraclite avec 1'autre, je me sentis si puissamment agité, que je fus contraint de les quitter brusquement, de peur que le contraste des passions opposées ne me fit tomber en syncope".

A palmada freudiana "teve um efeito decisivo sobre meus gostos, meus desejos e minhas paixões para o resto de minha vida". Rousseau nunca se decidiu, nem a casar, nem a abandonar a pobre criatura. Podemos acrescentar, entre parênteses, que o Émile prega uma espécie de dominant est de s'occuper de lui plus que des autres, et celui des méchants, au contraire, est de s'occuper des autres plus que d'eux" Ses amusements, ses plaisirs sont innocents et doux comme ses penchants: il n'y a pas dans son âme un goût qui soit hors de la nature, ni coûteux ou criminel à satisfaire" J'y distingue plutôt le clair de lune romantique Devemos, entretanto, salientar a existência de um outro aspecto na mentalidade de Rousseau.

Corria o ano de O sentimento supremo de auto-suficiência "tant que cet état dure, on se suffit à soi-même, comme Dieu Acredito que os frios, lógicos e um tanto ou quanto céticos philosophes enfrentaram as mesmas dificuldades que aterraram a posteridade, ao tentar destrinçar os nós cegos das declarações contraditórias de Rousseau.

Como resultado, nosso pensador foi também elogiado e criticado com a mesma falta de consistência. A nave de seus pensamentos foi de encontro aos escolhos que criara numa tempestade desesperante.

Ao menos, porém, em seu pensamento repousa o despotismo sobre a ideia de liberdade. É a tese do Contrato Social". As inconsistências de Rousseau seriam, ao que me parece, da própria essência de sua filosofia.

Os paradoxos encarnam a natureza dialética mais íntima da ideologia que foi refinada por Hegel e por Marx e que triunfa em nossos dias quando, por toda parte neste mundo, os regimes mais disparatados, antagonísticos e incompatíveis reclamam emocionalmente a mesma esplendorosa defesa da Liberdade, da Justiça e da Democracia.

E que algumas ainda mais obscurantistas se intitulem "científicas"? George Orwell inventou o termo magnífico double-think.

O triunfo da oclocracia. Muitos dos admiradores modernos de Rousseau protestam, às vezes veementemente, contra as suspeitas que recaíram sobre sua obra desde a época de 78 Robespierre, de Hegel, Marx, Stalin e Hitler. Talvez o próprio Rousseau se houvera sentido absolutamente aterrado com o uso que foi feito de suas teorias, se tivesse contemplado Auschwitz e o arquipélago Gulag. Um homem que escreveu sobre todos os assuntos de um modo ou de outro, só pode ser interpretado desse modo ou de outro.

Afinal de contas, temos que considerar o que ele disse, literalmente. Essas foram as ideias que influíram sobre seus contemporâneos e sobre seus seguidores jacobinos.

Cassirer procura resolver nossa perplexidade ao manter que a unidade do pensamento de Rousseau deve ser procurada na qualidade essencialmente ética de seus ensinamentos. Alfred Cobban, outro admirador, confessa que nenhuma síntese de suas ideias é possível: elas devem ser catalogadas num ou noutro de dois grupos contraditórios.

O padre francês R. Rousseau também idealizava Esparta e Roma. Prefiro acreditar que o Calvinismo evoluiu para o liberalismo-conservador moderno Rousseau idealizava as virtudes republicanas de Genebra. Através de todas as ambiguidades inconsequentes de suas teorias sociais, deparamo-nos sempre com um esforço dialético para aniquilar e fundir totalmente a consciência racional no grande caudal tormentoso da vida coletiva.

Donde a incapacidade igual de alcançar o significado transcendente da Cidade como uma vivência íntima da alma, no sentido agostiniano. Para Rousseau, o grupo possui uma realidade própria. O moi commun representa um Ego coletivo. Consequentemente, é uma entidade moral possuidora de sua própria vontade, a "Vontade Geral" volonté générale , capaz de fixar os próprios gabaritos morais de todos os seus membros.

Mas, em que consiste exatamente a Vontade Geral? Rousseau insiste na diferença entre as duas espécies de "vontade", desde que a segunda representa apenas o somatório de todos os interesses privados, enquanto possui a primeira uma realidade superior, em qualidade e valor, à realidade dos membros individuais do grupo. A Vontade Geral é definida como l'organe sacré de la volonté d'un peuple". Tentem, pois, resolver o criptograma! O argumento é vicioso. E Stalin obedecia virtuosamente à Vontade Geral do povo russo quando mandava 20 milhões de russos para o Gulag?

Cobban, ele próprio, acaba reconhecendo que todo o argumento de Rousseau constitui, na verdade, um enigma esfingético sem sentido. Agindo graças à sugestibilidade histérica que cria, o aventureiro político pode proclamar o carisma da sua vontade.

O demagogo é dono da Vontade Geral. Constitui de fato uma graça mística que é, porém, muito mais frequentemente concedida pelo sombrio Príncipe deste mundo do que por Deus onipotente. Quiconque refusera d'obéir à la volonté générale y sera contraint, par tout le corps: ce qui ne signifie autre chose sinon qu'on le forcera d'être libre.

O princípio de Rousseau configura um mero jogo de palavras. E, precisamente, porque ele apreciava tais dispositivos sofisticados é que pode ser considerado um dos precursores das técnicas modernas de propaganda e patrulhamento. Como primeiro passo, um sentimento de euforia se manifesta.

O povo acredita que alcançou afinal o estado ideal de liberdade, igualdade, justiça e felicidade. Cedo, entretanto, crescem as dificuldades. A anarquia se transforma em proveito dos mais astuciosos e ambiciosos. A história se repete invariavelmente. Émile Faguet acreditava que o movimento socialista começou com Rousseau. S'ils tentent de secouer le joug, ils s'eloigment d'autant plus de la liberté que, prenant pour elle une licence effrénée qui lui est opposée, leurs révolutions les livrent presque toujours à des séducteurs qui ne font qu'aggraver leurs chaines.

Tocqueville foi o homem que melhor se ocupou dessa incompatibilidade. A igualdade só pode, portanto, ser imposta pela lei, em detrimento da liberdade. No Contrato Social, ele declarou muito correta e claramente: "Cest précisément parce que la force des choses tend toujours à détruire l'égalité, que la force de la législation doit toujours tendre à la maintenir".

Ele descreveu a substância do grupo como um corpo místico. Na verdade, um novo sistema inquisitorial de controle do pensamento ia ser inaugurado e a censura hoje exercida pelos patrulheiros da intelectualidade de esquerda, nos meios acadêmicos e na imprensa, encontra suas raízes no pensamento paradoxal de Rousseau. Converte em heróis o informante secreto e o agente provocador.

Suas ideias levaram duzentos anos para amadurecer. Quando Rousseau escreveu "a consciência nunca nos engana O que sinto ser correto é correto, e o que sinto ser falso é falso", ele pretendeu combater o "dogmatismo" da Igreja. Na realidade, estava lançando o alicerce de um subjetivismo moral que constitui o mais secreto e peçonhento veneno do romantismo político. Mesmo ao proclamar e influenciar o renascimento do sentimento religioso, estava Rousseau, em sua crítica à Igreja, contribuindo mais que os materialistas e ateus como Helvetius e Diderot para o ataque ao Cristianismo.

Seus protetores foram os mesmos que descreveu como "essa canalha", "cette racaille'', Que l'on appele grand Seigneurs, Frippons sans probité, sans moeurs, Mangeant fièrement notre bien; Exigeant tout, n 'accordant rien. Bergson acreditava que Rousseau representou a influência mais poderosa que houve sobre a mente humana desde Descartes.

Goethe diria: "Com Voitaire o velho mundo termina. Com Rousseau um novo mundo se inicia. Isso, afinal de contas, apenas confirmaria uma das intuições mais originais de Rousseau.

Céticos e às vezes ateus, embora mais comumente deístas, os pensadores da época barroca meditaram profundamente sobre moral, sobre política, sobre filosofia das leis e sobre a necessidade de mudanças sociais que o sentimento de justiça lhes inspirava.

O racionalismo fora atingido pelo pecado de superbia, o orgulho diabólico. Seria esse, precisamente, o objetivo do socialismo. Os racionalistas concebiam a capacidade do homem de construir a Utopia. Popper deseja substituir a Utopia pela 93 engenharia social. Mas se desejamos ser teológicos a seu respeito, poderíamos acentuar que o racionalismo nas ciências sociais é um caso de hubris" A ciência daria ao homem progresso ou o que chamamos hoje Desenvolvimento.

O Renascimento liberou o homem de suas cadeias conservadoras enquanto a Reforma e a Contra-Reforma abarcam, num vasto conflito interior, a grande crise espiritual do homem ocidental. Em seu aspecto mais sólido e criativo, alia-se o racionalismo francês à Aufklärung germânica e ao sólido pragmatismo britânico para engendrarem o estado moderno e a democracia liberal parlamentarista, como hoje os conhecemos.

O dinossauro

Mas antes de Descartes, outros colocam Francis Bacon como o primeiro pensador da nova Idade. Bacon contribui com a ideia de utilidade. O objeto da ciência é melhorar a vida humana, aumentar nossa felicidade — commodis humanis inservire. Em sua Utopia, a New Atlantis, o chanceler inglês promove a ciência em seu valor social como caminho exclusivo para o progresso comum.

É preciso varrer esse lixo do passado. É mister estabelecer os alicerces da nova Idade. Imitando Bacon e Descartes, também devemos prosseguir nosso estudo com um exorcismo de nossa "sombra" intelectual. O valor do esprit systématique é proclamado por toda parte.

As elites se consideram racionais. Os reis querem governar racionalmente. Os ministros apregoam 95 reformas racionais e Boileau pontifica Aimez donc la raison, que toujours vos écrits Empruntent d'elle seule et leur lustre et leur prix O Romantismo interveio entrementes. Consideremos, entretanto, que eles tinham consciência de haver descoberto a arma definitiva do intelecto e imaginavam que, com ela, todo progresso seria possível.

Comparemos, por exemplo, o que ocorre na Europa do Século das Luzes com as nossas próprias circunstâncias atuais brasileiras. O racionalismo gera uma mentalidade. Libertavam-se do subdesenvolvimento, mas num sentido antes cultural, social e político do que propriamente econômico.

Imaginavam um novo mundo a construir que marcaria o triunfo da inteligência e é nesse momento, efetivamente, que o Mito do Progresso os empolga. As leis mecânicas transformaram-se em leis estatísticas. Os quanta. Tudo se transforma em abstrações Mas se assim é na vanguarda do pensamento, nós, que ainda permanecemos na retaguarda, ainda temos que passar pelo método, pela mecânica, pelo relógio, pelo esprit systématique, l'esprit de géométrie e pelo império tirânico dos fatos objetivos — para podermos avançar até o nível do desenvolvimento.

Vale notar que o Despotismo Esclarecido precedeu a teoria da liberdade, elaborada sobretudo pelos filósofos ingleses e pelo Romantismo de Rousseau. Nem pregavam a derrubada violenta dos governos constituídos. O trauma inicial de sua carreira como escritor e filósofo subversivo ocorreu quando foi espancado por uma gang de brutamontes, a soldo de um aristocrata medíocre, o chevalier de Rohan, com o qual havia tido uma desavença a respeito da dignidade dos respectivos nomes.

A prepotência do homem, cioso de seus privilégios de família, foi o que irritara Voltaire. O protesto contra o arbítrio levouo à Bastilha e ao exílio na Inglaterra. Tocqueville escreveu que os franceses "veulent 1'égalité dans la liberté et, s'ils ne peuvent l'obtenir, ils la veulent encore dans 1'esclavage". O tema é interessante. A lei é dura mas deve ser igual para todos. O senhor privilegia o protegido. O amigo, o amigo. As virtudes republicanas exigiam, por exemplo, que um Brutus ou um Manlius Torquatus mandassem executar seus próprios filhos porque se haviam tornado culpados de crimes contra o Estado.

Talvez o mais escandaloso de todos os privilégios é o esquema de refinado artifício, em consequência do qual ficam praticamente isentos do pagamento de imposto de renda os parlamentares, os magistrados e os militares — o que quer dizer, precisamente a "nobreza de espada e de toga" que governa este país como, no século XVIII, governava a França. É nesse sentido que podemos sustentar a necessidade de superar a mentalidade de privilégio.

Sem isso, jamais alcançaremos a tal famosa democracia que queremos O próprio Hume, por exemplo, negava absolutamente que um grupo de homens pudesse concluir um Contrato Social, sem audiência e concordância de seu soberano. A soberania estava expressa na fórmula concisa: "O Rei no Parlamento" O objetivo em todos os países é o mesmo. Sem esquecer as considerações de segurança e poder nacional que desempenhavam, na época, enorme papel na consciência dos governantes.

Essencialmente, o que se propunha era o império da lei. As leis podem ser amenas, suaves e permissivas. Nem é a anarquia o sólido alicerce da democracia. O grande exemplo, a meu ver, deste sentido exaltado da autoridade racional-legal é a famosa história do moleiro de Sans Souci. O homem negou-se. O rei insistiu, ameaçou. No que diz respeito à Inglaterra, algumas observações preliminares se impõem.

Déspota cruel e egoísta em seus atos caprichosos, decapitando esposas e amigos com a mesma sem-cerimônia com que mandava torturar selvagemente seus inimigos, Henrique Tudor consolidou todavia o poder do Parlamento, a ponto deste crescer sob a dinastia seguinte, a dos Stuart, e ser capaz de resistir vitoriosamente à tentativa absolutista do rei Carlos I.

Henrique VIII foi descrito como "um déspota sob as formas da lei" — o que bem explica os motivos de seu sucesso. É interessante notar que Samuel Huntington atribuiu aos Tudor as instituições que até hoje governam a América do Norte.

Mas de qualquer forma, foram os anglo-saxões os primeiros que transitaram do feudalismo para a democracia moderna. Esses ministros eram grandes burgueses. Nos países escandinavos aparece um Struensee, na Dinamarca, que, por andar depressa demais, perdeu a cabeça. Mas foi seguido de um Bernstorff e de um Reventlow.

Na Suécia, é o próprio rei Gustavo III que procura introduzir as ideias filosóficas francesas, para revitalizar uma monarquia em franco declínio. É uma figura melancólica de potentado frustrado. Catarina era uma comediante perfeita.

Foi tipicamente russa! Aos poucos, essa mentalidade brutalmente racional, disciplinada, agressiva, arregimentadora que, sob Bismarck, ergue o império guilhermino à altura de grande potência mundial, se corrompe com o veneno romântico do nacionalismo predatório, ao som das trombetas wagnerianas da Cavalgada das Walkírias e dos pronunciamentos grandiloquentes e proféticos do Zaratustra nietzscheano.

O Reich precipita-se, a si mesmo e ao mundo, na voragem de duas guerras mundiais, tornando-se a besta selvagem da Europa. A Espanha e Portugal também desfrutaram seus Déspotas Esclarecidos.

A Espanha na pessoa de Aranda, Portugal na do terrível marquês de Pombal. Obviamente porque, ao invés de reduzir a autoridade estatal, o propósito de Aranda e Pombal foi consolidar o Estado patrimonialista. Nessa época, é a leitura de Descartes proibida.

Sob Dona Maria I, tenta-se sistematicamente desfazer a obra de Pombal. O livro foi publicado em e posteriormente reeditado. Existe um relacionamento óbvio entre o esteticismo e a influência romântica sobre nossa cultura. O exibicionismo despudorado foi evidentemente inaugurado, no movimento romântico, pelo próprio Jean-Jacques Rousseau Mais recentemente, o romantismo tem invadido a própria teoria política.

Poderíamos chegar ao argumento de que o próprio sucesso do Marxismo em nossas plagas se prende às origens românticas do pensamento de Marx. O segredo do fascínio de Marx para nossos intelectuais reside, certamente, nessa postura antieconômica de que o dinheiro ou a propriedade é a origem de todos os males, de todos os pecados.

Paulo a Timóteo, cap. Havia, teoricamente, um leque de opções disponíveis. Fomos naturalmente buscar o modelo nas nações mais avançadas da Europa. Essas se tornaram, para nós, as sociedades exemplares. O Brasil preferiu seguir o exemplo britânico. Com o pretexto de que a monarquia era anacrônica e incompatível com a atmosfera progressista do Novo Mundo, desprezamos um regime que nos granjeara longa tranquilidade e evitara as misérias imperantes à nossa volta.

Vejam a França que, desde , conheceu quinze regimes diversos. E mesmo os países mais adiantados da América Latina como a Argentina, o Uruguai e o Chile, onde o sistema militar alterna com períodos de intranquilidade civil.

Todos nós sofremos de um mal endêmico. Afeta-nos uma espécie de profunda moléstia — um nosos como o qualificam os filósofos gregos — da qual só talvez a pequena Costa Rica haja escapado. É certamente uma ave rara nesta parte do mundo. Devem existir motivações profundas, de natureza psicossocial, que nos cabe investigar.

James, longe também o Rio de Janeiro republicano da Washington americana. Fomos atraídos pelas aparências externas. Pela letra de suas constituições. O espírito, porém, que nos inspirou era outro: era o do romantismo francês. Esta, segundo Vélez, originou-se na obra de Thomas Paine t O messianismo retórico de Paine teve efeitos perniciosos porque, inclusive, na genealogia das ideias, se transmitiu através de Saint-Simon e de Auguste Comte, como também salienta Ricardo Vélez.

Além de Rousseau, Vicente Barretto op.